domingo, 8 de julho de 2012

Inversão do Gibelinismo

O Barão Julius Evola

INVERSÃO DO GIBELINISMO - Considerações Finais
(Excertos)
Julius Evola
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(...) Parece que esta maçonaria se organizou de forma positiva no período dos rumores rosa-crucianos e da sucessiva partida dos verdadeiros Rosa-cruzes da Europa. Elias Ashmole, que parece ter desenvolvido um papel fundamental na organização da primeira maçonaria inglesa, viveu entre 1617 e 1692. Apesar disso, segundo a maioria, a maçonaria em sua forma atual de associação semi-secreta militante não remonta além de 1700(4) - em 1717 houve a inauguração da Grande Loja de Londres. Como antecedentes positivos, não apenas imaginados, a maçonaria teve sobretudo as tradições de determinadas corporações medievais, nas quais os elementos principais da arte de construir, de edificar, eram simultaneamente assumidos segundo um significado alegórico e iniciático. Assim, a "construção do Templo" poderia tornar-se sinônimo da própria "Grande Obra"^iniciática, o desbastamento da pedra bruta em pedra quadrada podia aludir ao dever preliminar de formação interna, e assim por diante. Pode-se pensar que até o começo do século XVIII a maçonaria conservou esses caráter iniciático e tradicional, de modo a, aludindo ao desempenho de uma ação interior, ter sido chamada de "operativa"(5). Foi em 1717 que, com a referida inauguração da Grande Loja de Londres e com o aparecimento da assim chamada "maçonaria especulativa" continental, verificou-se o suplantamento e a inversão de polaridades, de que falamos. Como "especulação", de fato valeu aqui a ideologia iluminista, enciclopedista e racionalista, junto com uma correspondente, desviada interpretação dos símbolos, e a atividade da organização concentrou-se decididamente no plano político-social, mesmo utilizando prevalentemente a tática da ação indireta e manobrando com influências e sugestões, cuja origem primeira era difícil determinar.

Pretende-se que essa transformação se tenha verificado somente em algumas lojas e que outras tenham conservado seu caráter iniciático e operativo mesmo depois de 1717. Efetivamente, esse caráter pode ser encontrado nos ambientes maçônicos a que pertenceram um Martinez de Pasqually, um Claude de St. Martin e o próprio Joseph de Maistre. Mas deve-se observar que também esta mesma maçonaria entrou, por outro motivo, numa fase de degenerescência, e nada pôde contra a afirmação da outra pela qual, acabou sendo assimilada. Tampouco houve qualquer ação da maçonaria que teria permanecido iniciática para protestar e desautorizar a outra, para condenar sua atividade político-social e para impedir que, em toda parte, ela tivesse validade própria e oficialmente como maçonaria.

Referindo-se, portanto, à maçonaria "especulativa", nela os vestígios iniciáticos permanecem limitados a uma estrutura ritual que, especialmente na maçonaria do rito escocês, teve caráter inorgânico e sincretístico, devido aos muitos graus além dos três primeiros (os únicos que têm alguma conexão efetiva com as precedentes tradições corporativas), tendo sido recolhidos símbolos das tradições iniciáticas mais variadas, visivelmente para dar a impressão de ter reunido a herança de todas elas. Assim, nesta maçonaria, também encontramos vários elementos da iniciação cavaleiresca, do hermetismo e da Rosa-cruz: nela aparecem "dignidades" como a de "Cavaleiro do Oriente ou da Espada", "Cavaleiro do Sol", "Cavaleiro das duas Águias", "Príncipe Adepto", "Dignitário do Sagrado Império", "Cavaleiro Kadosh (isto é, em hebraico, "Cavaleiro Sagrado"), equivalente a "Cavaleiro Templar", "Príncipe Rosa-cruz". Em geral - e este é o ponto que tem um significado todo especial - há uma ambição, particularmente por parte da maçonaria do rito escocês, de reportar-se justamente à tradição templar. Pretende-se, desta forma, que pelo menos sete de seus graus sejam de origem templária, além do 30º, que tem, explicitamente, a designação de "Cavaleiro Templar num grande número de lojas. Uma das jóias do grau supremo de toda a hierarquia (33º) - uma cruz teutônica - traz a sigla J.B.M., que é explicada, na maioria das vezes, com as iniciais de Jacopus Burgundus Molay, que foi ´último Grande Mestre da Ordem do Templo, e "De Molay" aparece também como uma "palavra de passe" desse gau, quase como se os que são iniciados nele fossem buscar de volta a dignidade e função do chefe da Ordem gibelina destruída. De resto, a maçonaria escocesa pretende ter muito de seus elementos transmitidos por uma organização mais antiga, chamada "Rito de Heredom". Esta expressão é traduzida por vários autores maçônicos por "ritos dos herdeiros", numa clara alusão aos herdeiros dos Templários. A lenda corresponde é que os poucos Templários sobreviventes ter-se-iam retirado para a Escócia, onde se colocaram sob a proteção de Robert Bruce e foram reunidos por este numa organização iniciática preexistente, de origem corporativa, que então assumiu o nome de "Grande Loja Real de Heredom".

É fácil perceber o alcance que essas   referências teriam em relação específica com aquilo que chamamos de "herança do Graal", caso elas tivessem um fundamento real: forneceriam à maçonaria um título de ortodoxia tradicional. Mas, na realidade, as coisas são muito diferentes.

Trata-se aqui de uma usurpação, não de uma continuação; antes com isso constata-se uma inversão da tradição precedente. Isso resulta de maneira característica considerando em seu complexo exatamente o mencionado grau 30º do rito escocês, que em algumas lojas tem como palavra de ordem: "A revanche dos Templários". A "lenda" que se refere a isso retoma o motivo mencionado anteriormente: os Templários que teriam encontrado refúgio em determinadas organizações secretas inglesas, criaram nelas este grau com a intenção de reorganizar Ordem e cumprir assim a sua vingança. Ora, a inversão já explicada do gibelinismo não poderia encontrar uma expressão mais clara do que nesta explicação do ritual: "A vingança dos templários abateu-se sobre Clemente V não no dia em que seus ossos foram atirados ao fogo pelos Calvinistas da Provença, mas sim no dia em que Lutero levantou metade da Europa contra o Papado em nome dos direitos da consciência. E a vingança abateu-se sobre Felipe o Belo, não no dia em que seus restos foram atirados entre os destroços de São Dionísio por uma turba em delírio, e nem mesmo no dia em que o último descendente revestido do poder absoluto saiu do Templo, que se transformara em prisão de Estado, para subir ao patíbulo, mas, sim no dia em que a Constituinte francesa proclamou diante dos tronos os direitos do homem e do cidadão"(6). O fato de o nível do plano do indivíduo - o "homem" e o "cidadão" - acabar descendo até as massas anônimas e dos seus dirigentes mascarados, resulta de uma história relacionada com o ritual de vários graus - no Rito Escocês do Supremo Conselho da Alemanha ela aprecia no 4º grau, chamado do "mestre secreto". Trata-se da história de Hiram, o construtor do Templo de Jerusalém que, diante de rei sacral Salomão demonstra ter sobre as massas um poder tão prodigioso que "o rei, famoso por seu um dos maiores Sábios, descobriu que, além da sua, havia uma força maior, uma força que no futuro descobrirá o próprio vigor, exercerá uma soberania maior do que a sua (de Salomão). Essa força é o povo (das Volk)". E acrescenta-se: "Nos, maçons do rito escocês, vemos em Hiram a personificação da Humanidade". O rito, tornando-os "Mestres secretos" deveria proporcionar aos iniciantes maçons a mesma natureza de Hiram: isto é, deveria troná-los partícipes desse misterioso poder de mover a humanidade como povo, como massa, poder que abalaria o próprio poder do rei sacral simbólico.

Quanto a ao grau especificamente templar (30º), deve-se observar ainda em seu rito de confirmação a associação do elemento iniciático com o elemento subversivo antitradicional, o que dará necessariamente ao primeiro o caráter de uma efetiva contra-iniciação nos casos em que o próprio rito não se reduz a uma cerimônia vazia, mas coloque em movimento forças sutis. No grau em questão, o iniciado que derruba as colunas do Templo e pisoteia a cruz, sendo admitido, depois disso, ao Mistério da escada ascendente e descendente com sete degraus, é aquele que deve jurar vingança e concretizar ritualmente tal juramento golpeando com um punhal a Coroa e a Tiara, isto é, os símbolos do duplo poder tradicional, da autoridade real e da pontifícia, exprimindo com isso nada mais do que o sentido de quanto a maçonaria, como força oculta da subversão  mundial, propiciou ao mundo moderno, partindo da preparação da revolução Francesa e da constituição da democracia americana e passando pelos movimentos de 1848, chegando até à Primeira  Guerra Mundial, à revolução turca, à revolução da Espanha e a outros acontecimentos análogos. Onde, no ciclo do Graal, como vimos, a realização iniciática é concebida de tal maneira que assume o empenho de fazer com que o rei ressurja, no rito agora indicado tem-se exatamente o oposto; há a contrafação de uma iniciação que está ligada com o juramento (às vezes com a fórmula: "Vitória ou morte") de atingir ou desestabilizar toda forma de autoridade superior.

De qualquer maneira, para os nossos objetivos, o lado essencial destas considerações é indicar o ponto em que a "herança do Graal" e de tradições iniciáticas análogas pára e onde, deixando de lado eventuais sobrevivências de nomes e símbolos, não se pode mais constatar nenhuma filiação legítima destas. No caso específico da maçonaria moderna, de um lado o seu confuso sincretismo, o caráter artificial da hierarquia da maioria de seus graus - caráter que aparece claramente mesmo a um profano -, a banalidade das exegeses correntes, moralistas, sociais e racionalistas aplicadas a vários elementos retomados, tendo em si um conteúdo efetivamente esotérico - tudo isso levaria a fazer ver nela um exemplo típico de organização pseudo-iniciática(7). Mas, considerando, por outro lado, a "direção da eficácia" da organização com referência aos elementos observados anteriormente e à sua atividade evolucionária, surge a sensação exata de se estar diante de uma força que, no que diz respeito ao espírito, age contra o espírito: uma força obscura, exatamente da anti-tradição e de contra-iniciação. E então é bem possível que os seus rituais sejam menos inofensivos do que se pode acreditar e que em muitos casos esses ritos, sem que se dêem conta os que deles participam, estabelecem justamente o contato com essa força, impossível de ser assimilada pela consciência comum.

Uma rápida referência. Na lenda do 32º grau do rito escocês ("Sublime Príncipe do real Segredo") muitas vezes é sabido pela organização e pela inspeção de forças (concebidas como reunidas em diferentes "acampamentos"), que, uma vez conquistada "Jerusalém", deverá ser construído ali o "Terceiro Templo"; Templo este que se identifica com o "Sagrado Império", como "Império do mundo". Discutiu-se longamente sobre os assim chamados "Protocolos dos Sábios de Sião", que contêm o mito de um plano detalhado de conspiração contra o mundo tradicional europeu. Falamos em "mito" entendendo com isso deixar em aberto a questão da veracidade ou da falsidade de um documento como este, muitas vezes aproveitado por um vulgar antissemitismo(8). O que permanece claro é que esse documento, como muitos outros semelhantes que aparecem em vários lugares, tem um valor sintomático, tendo em vista que as principais reviravoltas da história contemporânea que se verificaram depois de sua publicação apresentaram uma impressionante concordância com o plano nele descrito. Em geral, escritos do gênero refletem a obscura sensação da existência de uma "inteligência" diretora por trás dos fatos mais característicos da subversão moderna. Portanto, qualquer que seja a finalidade prática de sua divulgação ou, prescindindo do fato de serem inventados ou falsos, de como foram elaborados, esses escritos colheram "algo que está no ar", algo que a história vai aos poucos dando confirmação. Mas exatamente nos Protocolos vemos também o reaparecimento da ideia de um futuro império universal e de organizações que trabalham subterraneamente para o seu advento(9), porém numa contrafação que podemos dizer satânica, porque o que está efetivamente em primeiro plano é a destruição e o desenraizamento de tudo aquilo que é tradição, valores da personalidade e verdadeira espiritualidade. Esse pseudo-Império nada mais é que a suprema concretização da religião do homem mundanizado, que se tornou a extrema razão de si mesmo e que tem Deus como inimigo. Este é o tema com que parece conclui-se o spengleriano "decadência do ocidente" e a idade obscura - kali-yuga - da antiga tradição hindu.
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NOTAS:
4) Cf. A. Pike, Morals and Dogmas of the ancient and accepted Scotch rite, Richmond, 2ª ed., 1927.

5) Deve-se observar que já em seu período operativo e iniciático contata-se, na maçonaria, certa usurpação, quando ela atribui a si própria a "Arte Real". A inicviação ligada às profissões, de fato, é a que corresponde  ao antigo Terceiro Estado (a casta hindu dos vayça), isto é, a camadas hierarquicamente inferiores à casta dos guerreiros, aos quais corresponde legitimamente a "Arte Real". Por outro lado, deve-se observar também que a ação revolucionária da maçonaria especulativa moderna é aquela que corroeu as civilizações do Segundo Estrado e preparou, com as democracias, o advento das civilizações do terceiro Estado. No que diz respeito ao primeiro ponto, mesmo do aspecto mais exterior, é impossível que não fique uma impressão de comicidade ao ver fotografias de reis ingleses que, como dignatários maçons, vestem o avental e outros indumentos característicos das corporações artesãs.

6) Rituale del XXX grado del supremo consiglio del belgio del rito scozzese antico ed accettato, Bruxelas, s.d., pp. 49, 50. Na ação dramática ritual (cf. p. 42) dá-se o aparecimento de Squin de Florian, que iria denunciar os Templários e que como justificativa, afirma o seguinte princípio: "A Igreja está acima da liberdade"; contra isso, o Mestre da loja afirma: "A liberdade está acima da Igreja". Evidentemente, a primiera porposição está correta, se se tratar da pretensa liberdade de um indivíduo qualquer, enquanto a segunda será verdadeira se se tratar de quem tenha a qualificação requerida para colocar-se além das inevitáveis limitações próprias de uma determinada forma histórica de autoridade espiritual.

7) Surpreende encontrar num autor, normalmente tão qualificado no que se refere a estudos tradicionais, como GUÉNON, a afirmação de que, juntamente com a Compagnonnage, a maçonaria seriam quase a única organização atualmente existente no Ocidente que, apesar de sua degeneração, "pode reivindicar uma origem tradicional autêntica e uma transmissão iniciática regular" (Aperçus zur l'initiation, Paris, 1946, pp. 40, 103). O diagnóstico correto da maçonaria como sincretismo pseudo-iniciático criado por forças subterrâneas de contra-iniciação, que pode ser formulada exatamente com base nas teorias de Guénon, acaba sendo por ele explicitamente desmentida (cf. ibid. p. 201). Como isso possa conciliar-se com o caráter de tradicionalidade que Guénon ao mesmo tempo reconhece ao catolicismo, inimigo mortal da maçonaria moderna, é algo que permanece sem explicação. Uma desfiguração deste tipo é perigosa, especialmente oferece armas preciosas para uma interessada polêmica católica. O fato da mistificação e do uso subversivo do Mistério, que se verificou por uma inversão nas correntes já mencionadas e precipuamente na maçonaria em época recente (onde antes não constituíra senão uma anomalia teratológica), serviu para uma extravagante tese do catolicismo militante: aquela segundo a qual toda a tradição iniciática, em todos os tempos, teria tido um caráter tenebroso, diabólico, anticristão e, em suas consequências, subversivo. Isto, naturalmente, é apenas uma brincadeira de mau gosto. Mas uma tese como esta não é, acaso, corroborada por quem, desconsideradamente, atribui um caráter de ortodoxia e de filiação regular iniciática à maçonaria?

Gostaríamos muito que o leitor não supusesse em nós nenhuma animosidade preconcebida com relação à maçonaria. Pessoalmente, tivemos relações amigáveis com altos expoentes desta seita, que se esforçaram por valorizar seus vestígios iniciáticos e tradicionais. Com base nisso, trabalharam também, por exemplo, Ragon, A. Reghini, O. Wirth. Sabemos também de lojas, como a Johannis Loge e outras, que se mantiveram separadas da atividade político-social, apresentando-se essencialmente como centros de estudos. Mas, pelo dever para com a verdade, não saberíamos modificar em nenhum ponto o quadro geral que traçamos da maçonaria moderna do ponto de vista histórico, em consideração à direção predominante, efetiva e comprovada de sua atuação.

8) Nos Protocolos dos sábios de Sião, as fileiras do complô estão supostamente nas mãos do hebraísmo, mas há também uma referência à maçonaria. Um outro ponto que, quanto à maçonaria, deve ser colocado em destaque, é que os elementos por ela tomados de empréstimo de tradições propriamente ocidentais passam quase para o segundo plano frente às hebraicas - a grande maioria das "lendas" como também quase todas as "palavras de passe" têm base hebraica. Este é um outro, ponto suspeito. De fato, mesmo no conjunto do hebraísmo pode-se observar um processo de degradação e de inversão que igualmente despertou forças de contra-iniciação ou de subversão antitradicional. Essas forças provavelmente tiveram na história secreta da maçonaria um papel que não pode ser deixado de lado.

9) De passagem, devemos observar que a obra revolucionária da maçonaria permanece essencialmente limitada à preparação e à consolidação da época do terceiro Estado (que deu lugar ao mundo do capitalismo, da democracia, da civilização e das sociedades burguesas). A última fase da subversão mundial, por corresponder ao advento do Quarto Estado, relaciona-se com outras forças que necessariamente vão além da maçonaria e do próprio judaísmo, mesmo que frequentemente tenham se utilizado das destruições propiciadas por ela e por ele. É significativo que as atuais vanguardas da época do Quarto Estado tenham escolhido o símbolo do pentagrama, a estrela de cinco pontas, como a estrela vermelha dos Sovietes. O antigo símbolo mágico do poder do homem como iniciado dominador sobrenatural - símbolo que viu a consagração da espada do Graal - torna-se, por inversão, símbolo da onipotência e da demonia do homem materializado e coletivizado no reino do Quarto Estado.




EVOLA, Julius. O Mistério do Graal. 1. ed. São Paulo: Pensamento, 1986. Transcrito das páginas 179, 180, 181, 182, 183, 187 e 188.

2 comentários:

LEANDRO CLAUDIR disse...

Após lêr o texto, acredito que não há como vêr a maçonaria de outra forma senão uma organização subversiva. Uma organização que trabalha em prol de seus próprios interesses, uma organização de caráter mundial que a torna ainda mais perigosa para as Nações livres.
Anauê!

Felipe Silveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.